
Cuidar de quem cuida é a proposta do Projeto Roda de Afeto, desenvolvido pela Secretaria Municipal da Mulher e da Juventude (Semmju), por meio da Casa da Mulher, em Canaã dos Carajás. A quarta edição, realizada no dia 20 de outubro, promoveu a saúde mental e o bem-estar de mães atípicas, oferecendo acolhimento, escuta e apoio psicossocial, com atenção às necessidades das participantes.
O projeto, que tem o apoio da Secretaria Municipal de Educação (Semed), direciona a atenção às mães de crianças neurodivergentes, reconhecendo que elas também precisam de acolhimento e de oportunidades para cuidar de si. A proposta prevê um momento em que as mulheres recebem apoio e informações sobre questões relacionadas às suas próprias necessidades.
Para viabilizar a participação das mães, a Casa da Mulher estabeleceu uma parceria com o Centro TEA e o Viver e Conviver. A articulação do projeto inclui uma visita ao Centro TEA para identificar mulheres interessadas nos encontros. Enquanto as mães participam da programação na Casa da Mulher, as crianças ficam no Viver e Conviver, permitindo que as mulheres tenham duas horas dedicadas a si mesmas.
“Os encontros incluem palestras conduzidas pela equipe psicossocial da Casa da Mulher. Os temas acompanham também as campanhas de conscientização e os assuntos em discussão no município”, pontuou Soraya Sousa, coordenadora da Casa da Mulher.
Uma das participantes foi Patrícia Medeiros Ropelato, mãe de dois filhos autistas, de 9 e 16 anos. Ela enfrenta o desafio de atender às necessidades de cada um enquanto lida com suas próprias dificuldades como mulher autista e com a fibromialgia (síndrome clínica crônica que causa dor generalizada em todo o corpo, principalmente nos músculos e tendões, sem evidência de inflamação local). Ela relata dificuldades para dormir, controlar a ansiedade e cumprir a rotina, com dias em que não consegue sair de casa.
Nesse cotidiano, destaca o apoio do marido, que compartilha os cuidados com os filhos e a ajuda a se reorganizar nos momentos de crise. O companheiro também foi uma inspiração para que ela dedicasse atenção à própria saúde: ao começar a praticar atividades físicas, incentivou Patrícia a buscar o autocuidado. “Esse autocuidado eu comecei por incentivo dele”, conta, ressaltando a importância da cooperação familiar para enfrentar os dias mais difíceis.
“Desde que cheguei a Canaã dos Carajás, percebo uma melhora no atendimento às pessoas autistas. Consegui acesso às terapias para meus filhos, principalmente para o mais novo, que precisa de acompanhamento intenso, e reconheço o esforço para ampliar esse cuidado. Mas ainda sinto falta de mais atenção aos jovens e adultos autistas. Eu mesma encontro profissionais que nem sempre compreendem minhas dificuldades como mulher autista”, revelou Patrícia.
Outra mãe que participou foi Josiele dos Santos. Para ela, os principais desafios como mãe atípica envolvem a rotina de cuidados com os filhos e a busca por apoio para atender às necessidades deles. Moradora do bairro Centro, ela vive em Canaã dos Carajás há cinco anos e relata que decidiu deixar Belém após a filha ficar sem auxiliar na escola e enfrentar situações de bullying e maus-tratos.
Em Canaã, afirma ter encontrado suporte escolar, transporte e acesso a terapias, além do acolhimento na Casa da Mulher. Os encontros mensais proporcionam uma pausa nas responsabilidades cotidianas, com momentos de lazer e convivência entre as mães enquanto os filhos recebem cuidados em outro ambiente. “Aqui a gente encontra apoio, a gente encontra acolhimento”, destacou Josiele.
Nesta edição de outubro, houve a participação do servidor Deyvyson Fonseca, que atua como enfermeiro na UBS Lucas Lourenço Leite, na atenção primária à saúde no município. Ele ouviu as mulheres e conversou com elas sobre a prevenção do câncer de mama e do câncer do colo do útero.
A psicóloga Dilma Raychtock, da Casa da Mulher, convidou as participantes a refletirem sobre o autocuidado e a importância de dedicarem tempo a si mesmas, sem culpa, cobranças ou julgamentos. Ao perguntar quando havia sido a última vez que fizeram algo por si, destacou que as mulheres têm necessidades que também merecem atenção, para além das responsabilidades maternas.
A psicóloga apresentou o autocuidado como uma forma de responsabilidade afetiva consigo mesma. “Você não é só mãe. Você é mulher e merece cuidado, porque uma mãe cuidada cuida melhor”, reforçou.
O Projeto Roda de Afetos inclui mães e cuidadoras de crianças, adolescentes ou adultos com deficiência ou transtornos, contemplando também situações de vulnerabilidade psicossocial. A iniciativa reconhece que as demandas da rotina de cuidados podem gerar sobrecarga emocional e dificultar o acesso dessas mulheres a momentos de autocuidado, informações e redes de apoio.
O projeto prevê, ainda, uma capacitação sobre autismo, com foco na compreensão das necessidades das mães atípicas e no aprimoramento do acolhimento às famílias. Entre os conteúdos estão empatia, escuta qualificada, práticas inclusivas e fortalecimento das redes de apoio.
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