Sexta, 24 de Julho de 2026
31°

Tempo nublado

Canaã dos Carajás, PA

Brasil INVESTIGAÇÃO

Falhas da Voepass: o que diz o relatório final do acidente

Investigação do Cenipa identificou problemas na operação da aeronave, decisões da tripulação e falhas de supervisão antes do acidente que matou 62 pessoas.

24/07/2026 às 06h10
Por: Redação Fonte: CNN Brasil
Compartilhe:
O acidente aconteceu em agosto de 2024 e ainda existe investigação sobre o caso | Divulgação/SSP
O acidente aconteceu em agosto de 2024 e ainda existe investigação sobre o caso | Divulgação/SSP

O acidente envolvendo um avião da Voepass, que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024, foi precedido por uma combinação de problemas que envolveu a empresa aérea, a tripulação e a fiscalização do setor. É o que aponta o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

A aeronave, um ATR-72 de matrícula PS-VPB, fazia a rota entre Cascavel, no Paraná, e o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando entrou em uma região com condições intensas para formação de gelo.

O documento aponta que o avião já havia iniciado a viagem com um equipamento importante para enfrentar esse tipo de situação indisponível. O sistema Airframe De-Icing, utilizado para impedir o acúmulo de gelo em partes críticas da aeronave, estava inoperante.

Para os investigadores, a aeronave não deveria ter sido liberada para aquele voo diante da possibilidade de enfrentar condições de formação de gelo. Mesmo com o problema conhecido, o avião foi autorizado a decolar.

Durante o voo, o gelo se acumulou em superfícies da aeronave e afetou seu desempenho. A perda progressiva de velocidade levou o avião a uma condição de estol, situação em que as asas deixam de produzir sustentação suficiente para manter o voo normal.

A partir desse momento, houve perda de controle da aeronave. O avião caiu em uma área residencial de Vinhedo, provocando a morte de todas as 62 pessoas que estavam a bordo: 58 passageiros e quatro tripulantes.

O Cenipa também identificou falhas na atuação da tripulação. Os pilotos teriam demorado para perceber a dimensão do comprometimento causado pelo gelo e não teriam adotado no momento adequado os procedimentos indicados para deixar a região de formação severa de gelo e preservar a velocidade segura.

O relatório, entretanto, registra que os dois profissionais estavam devidamente habilitados e haviam passado por treinamento para voos em condições de gelo e situações de perda de controle.

A investigação analisou mais de 1,2 mil voos realizados pela aeronave e encontrou ocorrências anteriores relacionadas a problemas semelhantes. Entre os registros estavam episódios de redução de desempenho, falhas no sistema de proteção contra gelo, reinicializações repetidas do equipamento e alertas que não receberam a resposta necessária.

Na avaliação dos investigadores, a repetição dessas situações sem uma resposta efetiva contribuiu para criar um ambiente em que determinados desvios passaram a ser tratados como parte da rotina operacional.

O relatório aponta que a Voepass não conseguiu implementar medidas suficientes para interromper esse processo. Com isso, teria ocorrido uma redução na percepção dos riscos tanto entre os profissionais que atuavam diretamente nas operações quanto entre os responsáveis pela gestão da empresa.

A análise do Cenipa também apontou aspectos que poderiam ser aprimorados na atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Embora a agência já realizasse atividades de fiscalização sobre a companhia antes da queda, o relatório identificou oportunidades para reforçar a supervisão da segurança operacional.

Depois do acidente, foram adotadas novas medidas de controle. Entre elas está a ampliação da exigência de acompanhamento e análise de dados de voo para aeronaves ATR utilizadas por empresas submetidas às regras aplicáveis à aviação comercial.

A Anac também reforçou ações de fiscalização presencial. Posteriormente, a Voepass sofreu restrições operacionais e teve seus certificados de operação e manutenção cassados definitivamente em 2025.

O acidente também levou a mudanças e estudos envolvendo diferentes instituições do setor aeronáutico. Entre as providências adotadas estão atualizações em sistemas de monitoramento de desempenho, avaliações sobre treinamento de pilotos para recuperação de situações de perda de controle e recomendações para ampliar o acompanhamento dos dados de voo.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários