
Um simples exame de sangue pode revelar mais de 50 tipos de câncer antes de qualquer sintoma aparecer. O que parecia ficção científica se tornou realidade e está prestes a chegar ao Brasil.
A reunião anual da American Society of Clinical Oncology (Asco) ocorreu no início de junho em Chicago, nos Estados Unidos. Nela, um momento específico roubou todas as atenções: a apresentação dos resultados do estudo NHS-Galleri, aguardada por especialistas do mundo inteiro.
O oncologista Mark Robson, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova York, não poupou palavras ao comentar os dados exibidos pelo pesquisador britânico Charles Swanton, da University College London.
"Não estamos falando de um teste e, sim, de uma mudança profunda de paradigma, dessas que durante muito tempo pareceu coisa de ficção científica", disse Robson ao microfone.
Apesar do entusiasmo, ele também fez ressalvas importantes sobre o uso do teste em escala populacional.
O Galleri é um teste de rastreio multicâncer, termo preferido pelos oncologistas ao invés de biópsia líquida, embora os dois signifiquem a mesma coisa.
Com uma amostra de sangue, o exame detecta sinais de mais de 50 dos cerca de 100 cânceres conhecidos pela medicina. Além disso, o teste indica em qual parte do corpo a doença provavelmente está localizada.
A tecnologia se baseia em um fenômeno celular chamado metilação.
As células do corpo humano possuem o mesmo código genético, mas pequenas moléculas atuam como interruptores que ligam ou desligam genes específicos.
No caso de células cancerosas, esse processo se torna anárquico, com um acúmulo excessivo de metilações. Quando essas células morrem, liberam fragmentos de DNA hipermetilado na corrente sanguínea.
O exame, então, identifica esses fragmentos e, pelo padrão específico de cada tipo de câncer, aponta a origem do tumor. A especificidade do teste ultrapassa os 99%.
Isso significa que, entre cem pessoas saudáveis submetidas ao exame, apenas uma poderá receber um resultado falso-positivo.
A história do Galleri começa em 2013, quando cientistas de uma grande empresa americana de testes genéticos pesquisavam fragmentos de DNA fetal no sangue de gestantes.
O objetivo era identificar síndromes raras em bebês antes do nascimento. Porém, em 20 amostras, os pesquisadores encontraram fragmentos que não eram da mãe nem do filho e tinham características de células cancerosas.
A investigação confirmou: aquelas mulheres tinham tumores em estágio inicial, sem nenhum sintoma.
Dois anos depois, em 2015, esse grupo fundou uma empresa independente na Califórnia, batizada de Grail, uma referência ao Santo Graal da medicina.
A partir daí, a equipe coletou sangue de dezenas de milhares de pessoas com e sem câncer, para comparar os padrões dos fragmentos de DNA e construir um banco de dados robusto o suficiente para tornar o teste confiável.
Atualmente, a medicina dispõe de programas de rastreamento precoce para apenas cinco tipos de câncer:
Isso representa uma lacuna enorme.
O oncologista Fernando Moura, do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo e líder do Programa de Medicina de Precisão da instituição, explica que todos os outros cânceres costumam ser descobertos de forma incidental ou depois que os sintomas já aparecem, em estágios mais avançados.
O pesquisador Charles Swanton reforçou essa realidade com dados do estudo: no Reino Unido, apenas 6% dos tumores são detectados pelos rastreamentos oficiais.
Nos Estados Unidos, esse índice chega a 14%. No entanto, mais de 70% dos casos diagnosticados nesses países pertencem a tipos de câncer para os quais não existe nenhum programa de rastreamento precoce.
O NHS-Galleri envolveu 142.942 participantes do Reino Unido, com idades entre 50 e 77 anos, todos sem sintomas de câncer. O estudo foi randomizado, ou seja, os participantes foram distribuídos por sorteio em dois grupos.
O primeiro grupo realizou exames convencionais periódicos, como ultrassom e tomografia, para monitorar 12 tipos de câncer ao longo de três anos.
O segundo grupo fez três testes de rastreio multicâncer, um por ano. Sempre que o resultado era positivo, o participante era encaminhado para exames complementares de confirmação.
Os resultados, porém, foram mistos.
O desfecho primário do estudo de reduzir o número de diagnósticos nos estágios 3 e 4, os mais avançados não foi alcançado com diferença significativa entre os grupos.
Contudo, o grupo que fez o teste Galleri apresentou 16% mais diagnósticos nos estágios 1 e 2, quando o tratamento tem maiores chances de cura.
Além disso, houve uma redução de 25% nos diagnósticos emergenciais, aqueles em que o paciente chega ao pronto-socorro com sintomas agudos e descobre o câncer no momento da crise.
Outro dado relevante: o teste detectou quatro vezes mais suspeitas de câncer do que os exames convencionais.
No entanto, mais de 800 exames de imagem solicitados após resultados positivos não confirmaram a presença de tumor, o que gerou debate sobre o custo e o impacto psicológico dessa incerteza.
Entre os especialistas nos corredores da Asco, uma preocupação se repetiu: se toda a população fizer o teste e muitos resultados derem positivo, a demanda por broncoscopias, tomografias e outros procedimentos caros pode explodir.
O doutor Fernando Moura, contudo, pondera que apenas 1% dos resultados do estudo foi positivo.
Além disso, ele argumenta que cânceres detectados no início demandam tratamentos menos complexos e mais baratos do que os descobertos em estágios avançados, o que gera economia no sistema de saúde a longo prazo.
No entanto, o médico também aponta riscos que merecem atenção:
Por isso, no Einstein, já se discute que o geneticista será o profissional responsável por acompanhar o paciente em todo esse processo.
O Galleri já está disponível nos Estados Unidos para pacientes com pedido médico, ao custo de 949 dólares por exame.
No Brasil, a expectativa é que o teste esteja disponível no segundo semestre de 2026, com previsões que apontam para agosto ou setembro como possíveis datas de chegada.
O debate sobre a adoção do teste em escala populacional ainda está em aberto. Porém, para quem tem condições de arcar com o custo individualmente, os especialistas reconhecem as vantagens.
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